Nossos hábitos, bons ou maus, são sempre adquiridos. Podemos nascer com essa ou aquela característica física, a carga genética responde pela escultura de nosso corpo e em parte pela potencialidade de nossa mente, mas, o desenvolvimento de gostos ou hábitos – como o hábito de ler – é sempre uma característica aprendida.Nossos hábitos, bons ou maus, são sempre adquiridos. Podemos nascer com essa ou aquela característica física, a carga genética responde pela escultura de nosso corpo e em parte pela potencialidade de nossa mente, mas, o desenvolvimento de gostos ou hábitos – como o hábito de ler – é sempre uma característica aprendida.
Mas quando se afirma que esse ou aquele hábito é produto de aprendizagem não está se insinuando que essa aprendizagem seja sempre intencional. A criança não se transforma no adolescente ou adulto que será sem passar por diferentes tipos de escolas, mas as escolas que forjam os hábitos são muitas: a família e seus exemplos, as amizades, a própria escola, como também a televisão, o cinema, o pátio, a rua e toda imensa diversidade de entornos que acompanha o crescer.  Gêmeos idênticos separados ao nascer continuarão idênticos pela vida inteira, mas seus hábitos e seus valores serão tanto mais diferentes quanto mais diferentes são as escolas que a vida lhes proporcionou.

Dessa maneira, não coloquemos em dúvida o que é consenso para a ciência e, por esse motivo, a questão acima apresenta uma resposta indubitavelmente positiva: é claro que é possível ensinar uma criança a gostar de ler, ainda que algumas desenvolvam potencialidades maiores e se envolvam mais apaixonadamente pela leitura que outras.
Afirmações categóricas como essa, quase sempre provocam indagações. Por exemplo: se tenho dois filhos e ambos cresceram no mesmo lar e na mesma família, recebendo um tudo quanto o outro recebeu, por que um deles se apaixonou pelos livros e o outro cresceu quase indiferente a eles? Não se tem dúvida na resposta: o mesmo lar pode pensar que educa da mesma forma, mas nem sempre isso ocorre. A semelhança é visível, mas no dia a dia, nos exemplos colhidos aqui e ali, surgem pequenas diferenças que o tempo aumenta; dessa forma, filhos que crescem no mesmo ambiente nem sempre recebem em toda plenitude a mesma forma de educação. Por esse motivo, se desejarmos que as crianças amem a leitura, é essencial que o estímulo a esta seja carregado de intencionalidade.

Em verdade, quando pais e professores se envolvem na firmeza de um projeto e este inclui o gosto pela leitura, todas as crianças crescem com a mesma paixão, ainda que com gostos diferentes.

A palavra-chave para desenvolver na criança o gosto pela leitura, como se viu, é intencionalidade. Essa palavra se opõe à acidentalidade e, dessa maneira, descobre-se que é essencial que pais e professores mostrem uma forte intenção em despertar nos filhos e nos alunos o gosto pela leitura. É por isso que a intencionalidade necessita vir acompanhada de procedimentos que se materializarmos as intenções elas podem se tornar efetivas. E parece não haver melhor maneira de se desenvolver hábitos procedimentais como a leitura, pois é um conjunto de regras que se segue de forma sistemática.

Portanto:

• Uma dessa regras é habituar-se a ler próximo à criança, fazendo que perceba o quanto você gosta da leitura. Chamá-la vez por outra para mostrar uma foto, comentar uma informação, esmiuçar uma notícia que pode interessá-la. Seja qual for o livro que se está lendo, ou mesmo um jornal, pode servir para esse gostoso compartilhar.

• Outra regra simples é sempre que possível contar histórias para a criança, recheando-a de questões que exijam sua opinião. Mesmo quando se conhece uma história de cor, ainda assim é interessante abrir-se um livro e demonstrar que livros são lugares que guardam histórias, segredos, mistérios, surpresas, risos…

• Ainda com um livro, uma revista ou um jornal leve a criança a descobrir o significado das palavras: busque junto a ela um dicionário e invente a mesma frase lida antes, lida agora com palavras diferentes que preservam sentido igual.

Todo bom leitor, se desejar, pode ensinar palavras como um bom guia ensina caminhos, revelando curiosidades, despertando-lhes a imaginação. Por acaso não existem palavras doces – ternura? Palavras ríspidas – raiva? Palavras esquisitas – fronha? Palavras ambíguas – manga?
Assim, gostar ou não de ler não constitui oportunismo biológico ou atributo evolucionista, mas hábito que se conquista junto aos adultos, quando estes mostram com paciência e ternura, por exemplo, as diferenças entre livros e jornais, notícias e informações, mensagens e pensamentos. Converse sobre escritores, faça que a criança descubra admiração por eles e prometa para o dia seguinte um verso, uma mensagem ou a simulação de um personagem da literatura.
Toda criança amparada por pais e professores que amam a leitura e fazem desse amor uma declaração consistente, acabam amando a leitura também e, assim, sem virar as costas para a televisão descobrem o amor pelas palavras impressas, o doce segredo que cada frase escrita ousa revelar.

Por isso:

• Desenvolva na criança a paixão pelos livros. Quando fizer uma pergunta, mesmo que seja o número de um telefone ou um endereço mostre a ela que é por meio dos livros – como a lista telefônica e o guia das ruas – que se conquista informações. Habitue-o a perceber como você pesquisa nos livros, nos jornais, nas revistas.

• Não importa se em sua casa existem poucos livros ou se a biblioteca da escola não é muito grande, valem bem mais o carinho, o respeito e a paixão com que os livros são tratados que uma quantidade enorme deles.

• Explique para a criança o que é um sábio. Prometa que um dia você a apresentará a um deles. Mostre depois que esse sábio pode ser uma pessoa, mas também uma obra. Conte sobre os livros que leu, da influência que tiveram em sua vida.

• Mostre à criança que muitos dos desenhos que ela assiste na TV e adora nasceram em livros. Se puder faça dos amigos e parentes “pessoas especializadas” nesse ou naquele tema e, vez por outra, convide a criança a telefonar a essas pessoas para obter respostas específicas. Quando a criança pergunta algo diferenciado, fale: “Opa, acho que isso é com tio Guilherme” ou “Creio que meu colega Marcondes sabe responder, que tal ligar para ele?”

• Presenteie a criança com livros, jamais exagere, pois, o exagero é sempre prejudicial. Fale do presente ainda antes da hora, para que a criança, aos poucos, vá criando admiração, entusiasmo.

• Verifique se existe a possibilidade de doar alguns livros ou revistas antigas. Se possível anime a criança a participar inteiramente nessa doação. Selecione algumas horas por mês para convidar a (s) criança (s) a ajudar você na arrumação da estante, no cuidado dos livros. Comentários estimuladores ajudam sempre: “Puxa, este aqui bem merece uma capa! ”, “E agora, como você acha que vamos resolver o problema dessas folhas que estão se soltando? ” ou “um paninho com um pouco de lustra-móveis vai deixar essa estante bonita, você não acha que os livros vão adorar uma casa limpinha?”

• Anime as crianças a escreverem cartas para os autores.
Se não tiver endereço, envie-os para as editoras. Será uma alegria imensa receber respostas e elas sempre chegam. Mesmo que o autor seja falecido, anime as crianças a escreverem “cartas de mentirinha” e deixá-las guardadas nas páginas do livro. Depois de algum tempo será uma surpresa e uma alegria a oportunidade de relê-las.

Desenvolver na criança hábitos de leitura não apenas amplia seu potencial linguístico, mas abre portas à sua criatividade. Leitura é entretenimento, cultura, horas que se passa distante de hábitos que não convém adquirir, procedimentos que os pais, muitas vezes tardiamente, lamentam.
Antunes, Celso. A criança pobre mais rica que conheci. Ed. CHIADO.

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